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Pesquisa sobre evolução do vírus Zika no Globo

Vírus da zika já circulava pelo Brasil em 2013, mostra pesquisa

Estudo com sequenciamento e análise de genomas do micro-organismo retraça os caminhos da doença pelas Américas

Por Cesar Baima | Publicado em 24/05/2017 e Atualizado em 25/05/2017 | O Globo

RIO - O v√≠rus da zika j√° circulava pelo territ√≥rio brasileiro mais de um ano antes do registro oficial do primeiro caso da doen√ßa no pa√≠s, em maio de 2015. A conclus√£o √© de uma s√©rie de estudos que sequenciaram e analisaram 110 genomas do micro-organismo para retra√ßar os caminhos e a evolu√ß√£o do zika nas Am√©ricas com base em suas muta√ß√Ķes desde ent√£o, publicada nesta quarta-feira na prestigiada revista cient√≠fica ‚ÄúNature‚ÄĚ.

Segundo os pesquisadores, depois de ser introduzido no Brasil em algum momento no fim de 2013, provavelmente vindo da Polinésia Francesa, que então enfrentava uma epidemia da doença, o vírus se espalhou principalmente na Região Nordeste do país e logo sofreu uma primeira mutação, possivelmente entre janeiro e fevereiro de 2014, que já permitiu diferenciá-lo da linhagem asiática original.

Daqui, o v√≠rus supostamente seguiu rapidamente para outros pa√≠ses das Am√©ricas do Sul e Central e atingiu a √°rea do Caribe, partindo de l√° para a Fl√≥rida. E, como aconteceu aqui, as autoridades de sa√ļde p√ļblica destas na√ß√Ķes tamb√©m demoraram a perceber que estavam lidando com uma nova doen√ßa, com o per√≠odo entre o in√≠cio da circula√ß√£o do micro-organismo em seu territ√≥rio e o registro oficial da primeira v√≠tima de zika variando de pouco menos de seis meses a quase um ano em locais como Porto Rico, Honduras, Col√īmbia e EUA.

- Em todos os pa√≠ses a circula√ß√£o do v√≠rus aconteceu bem antes da detec√ß√£o dos primeiros casos da doen√ßa pelas autoridades de sa√ļde p√ļblica, passando despercebido e negligenciado ‚Äď destaca Thiago Moreno Lopes e Souza, pesquisador da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um dos autores do artigo central da s√©rie na ‚ÄúNature‚ÄĚ sobre a evolu√ß√£o e dispers√£o do zika no continente.

No seu trajeto pelas Am√©ricas, o micro-organismo tamb√©m continuou a passar por altera√ß√Ķes que deram origem a quatro subtipos distintos ‚Äď conhecidos como clados. Tr√™s desses grupos geneticamente diferentes, mas que dividem um ancestral comum, foram identificados, respectivamente, na Col√īmbia, em Honduras e em Porto Rico, com o quarto subtipo encontrado em partes do Caribe e dos EUA.

Ainda de acordo com os cientistas, os resultados dos estudos atestam a import√Ęncia de unir as modernas t√©cnicas de gen√īmica aos servi√ßos de vigil√Ęncia epidemiol√≥gica para enfrentar o crescente perigo de epidemias do mundo globalizado.

- O aumento da popula√ß√£o global e a globaliza√ß√£o trazem este desafio para a sa√ļde p√ļblica, com a transmiss√£o de pat√≥genos (agentes causadores de doen√ßas, como v√≠rus e bact√©rias) numa escala muito mais r√°pida e maior do que antes na Hist√≥ria ‚Äď lembra Fernando Bozza, pesquisador da Fiocruz e tamb√©m do Instituto D‚ÄôOr e outro coautor do estudo central da s√©rie na ‚ÄúNature‚ÄĚ. - J√° vimos o surgimento de v√°rios pat√≥genos ‚Äúnovos‚ÄĚ nos √ļltimos anos, como o pr√≥prio zika, o ebola e o H1N1 (um tipo de v√≠rus influenza que ficou popularmente conhecido como ‚Äúgripe su√≠na‚ÄĚ, respons√°vel por uma pandemia em 2009) e provavelmente isso vai continuar ou at√© aumentar nos pr√≥ximos anos. Ent√£o √© essencial estarmos preparados para estas futuras epidemias. E isso s√≥ acontece se tivermos um sistema de vigil√Ęncia ativa com uso da gen√īmica estruturado, pois n√£o √© mais um desafio t√©cnico.

Mas como saber que doença procurar antes mesmo de se tomar conhecimento de que ela está circulando numa população, como aconteceu com a zika? Para Souza, no entanto, isto não é mais um problema.

- √Č um jogo de gato e rato mesmo, e em geral √© preciso termos um rato para o gato come√ßar a trabalhar ‚Äď conta o pesquisador. - Mas nos √ļltimos anos houve uma evolu√ß√£o muito grande nos m√©todos de detec√ß√£o de genomas virais, que est√£o mais precisos e r√°pidos. Temos os recursos dispon√≠veis para juntar a gen√īmica com a vigil√Ęncia epidemiol√≥gica n√£o s√≥ para responder mais r√°pido ao surgimento de uma nova doen√ßa como para nos anteciparmos a isso. Creio que esta √© uma das mais importantes li√ß√Ķes desta epidemia e destes estudos.

Para isto dar certo, no entanto, tamb√©m √© preciso que a popula√ß√£o em geral colabore, ressaltam os pesquisadores. Ainda citando como exemplo o caso da zika, ambos contam que o v√≠rus tem uma presen√ßa relativamente pequena e transit√≥ria no organismo dos doentes, o que limita a ‚Äújanela‚ÄĚ de tempo que a doen√ßa pode ter seu diagn√≥stico efetivamente confirmado por exames gen√©ticos.

- A percep√ß√£o e comunica√ß√£o em sa√ļde da popula√ß√£o tamb√©m √© fundamental para isso ‚Äď diz Souza. - Uma pessoa doente deve buscar atendimento prontamente. Se o pr√≥prio indiv√≠duo negligenciar seus sintomas, nossa capacidade de detec√ß√£o dos pat√≥genos pode cair drasticamente e os exames darem at√© negativo, impedindo a identifica√ß√£o da chegada de uma nova doen√ßa. Assim, este tipo de estrat√©gia antecipat√≥ria de epidemias tamb√©m depende da colabora√ß√£o dos pacientes.

Por fim, embora tenham verificado diversas muta√ß√Ķes no v√≠rus da zika depois que chegou nas Am√©ricas, os pesquisadores ainda n√£o sabem que efeito elas podem ter provocado tanto na aparente rapidez com que o micro-organismo se espalhou pelo Brasil e pelo continente quanto porque esta epidemia em particular causou um surto de casos de microcefalia nos beb√™s de gr√°vidas infectadas e de s√≠ndromes neurop√°ticas em alguns doentes.

- Ainda n√£o estabelecemos a funcionalidade destas muta√ß√Ķes, mas j√° catalogamos sua diversidade, que poder√° ser usada por n√≥s e outros pesquisadores para descobrir, por exemplo, se elas ajudaram a agilizar o processo de transmiss√£o do v√≠rus ‚Äď aponta Souza, acrescentando que uma altera√ß√£o gen√©tica rec√©m-identificada como tendo tornado o micro-organismo mais eficiente na contamina√ß√£o de mosquitos da esp√©cie Aedes aegypti, seu principal vetor aqui, em estudo tamb√©m publicado na ‚ÄúNature‚ÄĚ est√° presente em todos os 110 genomas do zika espalhados pelas Am√©ricas agora sequenciados.

 

Leia a mat√©ria na √≠ntegra em: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/virus-da-zika-ja-circulava-pelo-brasil-em-2013-mostra-pesquisa-21387029#ixzz4iCiiPAV1 stest

 
     
     
   
     
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